O primeiro critério não é o gosto da equipe
Resumo
Gostar de um canto é legítimo, mas o gosto pessoal não pode ser o primeiro critério para decidir o repertório da Missa. A música litúrgica precisa corresponder ao texto, ao tempo e ao momento celebrativo, aos gestos do rito e às possibilidades reais de quem irá cantar. Uma composição artisticamente boa pode ser inadequada quando não responde à função para a qual está sendo escolhida.
Texto formativo
Toda equipe de música possui preferências. Alguns músicos se identificam mais com determinados estilos, compositores, movimentos e formas de acompanhamento. Essas preferências fazem parte da experiência musical e não precisam ser eliminadas. O problema começa quando o gosto pessoal se transforma no principal critério para escolher aquilo que será cantado na celebração. Na liturgia, a pergunta inicial não deveria ser “qual música queremos cantar?”, mas “o que este momento da celebração pede musicalmente?”. Essa mudança aparentemente simples modifica profundamente o processo de preparação do repertório. Um canto pode ser musicalmente belo, possuir um texto religioso consistente e ser muito apreciado pela equipe e, ainda assim, não responder adequadamente à função para a qual está sendo escolhido. Por isso, a escolha litúrgica exige critérios que ultrapassem preferências individuais. O primeiro deles é a função ritual. Precisamos saber o que o canto realiza dentro da celebração. Ele acompanha uma procissão? É uma aclamação? Constitui uma resposta da assembleia? Está ligado à Palavra proclamada? Acompanha uma determinada ação? Essa identificação impede que tratemos todos os cantos como se fossem intercambiáveis. Depois vem o conteúdo textual. Não basta encontrar referências genéricas a Deus, Jesus, fé ou comunidade. É necessário verificar se aquilo que está sendo cantado corresponde ao sentido daquele momento e à celebração concreta. Também precisamos considerar o tempo litúrgico e as características próprias da celebração. Advento, Natal, Quaresma, Páscoa e Tempo Comum possuem acentos distintos. Solenidades e festas também podem apresentar elementos próprios que devem orientar a preparação. Somente depois desses critérios entram questões como estilo, arranjo e preferência musical. O gosto não desaparece; ele simplesmente deixa de ocupar o lugar que pertence ao discernimento litúrgico. Esse processo também ajuda a equipe a superar discussões improdutivas. Quando duas pessoas dizem apenas “eu gosto” e “eu não gosto”, há pouco espaço para uma decisão objetiva. Quando a conversa passa a considerar função ritual, texto, tempo litúrgico e participação da assembleia, surgem critérios que podem ser analisados em conjunto. Escolher repertório para a Missa é, portanto, mais do que montar uma sequência de músicas agradáveis. É realizar um discernimento musical, litúrgico e pastoral. Uma equipe amadurece quando consegue explicar não somente por que gosta de determinado canto, mas principalmente por que aquele canto é adequado àquela celebração e àquele momento do rito.
Aplicação prática
Use quatro filtros antes de aprovar um canto: função ritual, texto e conteúdo, tempo ou celebração concreta e capacidade da assembleia e da equipe. Somente depois desses critérios entram preferências de estilo, arranjo e gosto musical. Esse processo torna a escolha menos subjetiva e mais pastoral.
Pergunta para reflexão
Se retirarmos a frase “eu gosto dessa música” da conversa, quais critérios sustentam nossas escolhas de repertório?